quinta-feira, 31 de julho de 2025

Diálogos psicanalíticos com o grupo "Psicanálise, arte e clínica" do Amapá no extremo norte do Brasil

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No último sábado, 26 de julho, em uma tarde linda de verão amazônico, conversei com o grupo de psicanalistas do Amapá, "Psicanálise, arte e literatura". O cenário dessa conversa foi escolhido para referir à literatura amazônica, no ponto turístico paraense, "Parque da Residência", onde está o monumento em homenagem a Ruy Paranatinga Barata - poeta, escritor, compositor, nome de escolas e figura muito importante para o cancioneiro nortista. Um ambiente arborizado e inspirador, repleto de placas para sinalizar as espécies da fauna que compõem o paisagismo da lugar. E entre histórias sobre os caminhos da pesquisa, entre Freud e Hilda Hilst, que de certa forma articula os temas nos quais se debruça o grupo amapaense, falamos sobre a história da teoria psicanalítica, clínica, subjetivação feminina, a escrita na posição feminina, o mito de Ariadne e Dionísio, etc. Momento de troca de conhecimentos, afetos e agradecimento da minha parte pela influência direta das discussões psicanalíticas desse grupo, que acompanho (direta e indiretamente) desde 2020. Por isso, esse é um momento de agradecimento e muito respeito por essa reunião de colegas que permitem a circulação do discurso do analista em meio a águas doces no extremo norte brasileiro. O que fazem com rigor teórico e prático (pela experiência dos analistas), persistência e abrindo espaço para uma poética psicanalítica amapaense. Muito obrigada pela oportunidade de diálogo em um ambiente afetuoso, inspirador e amazônico. A proposta é um enlace da “Ode descontínua e remota para flauta e oboé: de Ariana para Dionísio” (1974) ao rastro do investimento pulsional em um objeto de desejo. Justifica-se: - Para estudos psicanalíticos da teorização sobre objeto, pulsão e Eu em Freud. - Trabalho interdisciplinar, que articula literatura e psicanálise. - Relevância das produções de mulheres na cultura. - Investigação teórico-clínica com abordagem qualitativa das informações coletadas na pesquisa bibliográfica. Blocos temáticos: Textos de Freud sobre literatura e psicanálise. Estudos literários acerca da Ode Descontínua e Remota (1974). Conceitos fundamentais: objeto, pulsão, narcisismo, repetição e trabalho de luto. Principais Referências: O poeta e o fantasiar (1907-1908) - e o paralelo entre brincar, fantasiar e escrita criativa; Transitoriedade (1916) - e a elaboração do luto pela efemeridade da beleza, da perfeição e da vida; O prêmio Goethe (1930) - e a perspectiva freudiana da literatura; Personagens Psicopáticos no palco (1905-1906) - a discussão sobre tragédia, comédia e drama e o gozo e alívio pela literatura. Afinidade entre literatura e psicanálise é contextualizada da seguinte forma: “A literatura e a psicanálise dizem respeito à subjetividade, se utilizam da palavra, mas pertencem a campos distintos de atuação” (Jouvin, 2020, p.89) Críticas à psicanálise – psicobiografias Críticas a escritos psicanalíticos sobre Allan Poe, Nietzsche, Baudelaire e Goethe, etc... Tentariam completar o sentido da obra com elementos da biografia de autores(as); Aplicação de conceitos psicanalíticos, aprioristicamente, a despeito do enredo e do contexto que compõe as obras. (Chaves, 2020; Dunker, 2016; Fucks e Ribeiro, 2009). Em defesa da psicanálise - um componente da avaliação que deu a Freud o “Prêmio Goethe”: “rigoroso método científico, ao mesmo tempo, com uma ousada interpretação das metáforas cunhadas pelos poetas”; “enriqueceu o mundo das representações dos artistas...”; “uma personalidade que já alcançou prestigio com suas obras, cujo feito criador é digno de uma homenagem dedica a lembrar Goethe [...]” (Freud, 1930b/2020, p. 307) Ideias principais defendidas no trabalho: O objeto está para o Eu desde o seu desenvolvimento: no desejo do Outro, no narcisismo primário e secundário e no ciclo pulsional de investimento e escolhas de objeto; O objeto é indefinido, porque remete à falta de algo que satisfaça, plenamente, uma demanda pulsional; Da experiência psíquica com a castração, fica como resto o registro da falta do objeto perdido (mítico, nunca tido), por onde se dá a entrada no simbólico pela inscrição da Lei, ficando um desamparo fundamental no sujeito desejante; Demanda que se repete a cada reencontro com um objeto de desejo. A aposta desse trabalho dissertativo é de que Ariana tem em Dionísio um objeto que atualiza investimentos constitucionais, que a posicionam como um sujeito faltoso em elaboração do luto da castração diante da alucinação da presença na ausência de seu amado-deus. Tal que se acredita que ela repete um ciclo pulsional que passa pela erotização de seu corpo, para seu objeto de desejo até o reinvestimento em si, em dinâmicas de lamúria pela ausência, regozijo pela criação poética e canto/clamor de espera em perlaboração do sofrimento amoroso.

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